terça-feira, 7 de julho de 2009

O trânsito, 3ª parte

Em voo de Ho Chi Min para Da Nang, ao som de The Best of You, dos Foo Fighters, Não sei bem porquê, mas acho esta música extraordinária. Talvez porque eles são mesmo bons. Vejam por exemplo o The Pretender, no YouTube, ou oiçam a Razor. Bom, mas chega de banda sonora. De qualquer modo sabe bem mudar de vez em quando. Deixar de ouvir as apitadelas constantes do trânsito. E isto leva-nos – esperem, tenho de ouvir esta música outra vez, só um segundo... Ok. Onde ia eu?... ah, estava a dizer que isto nos leva à conversa por terminar sobre o tráfego vietnamita. E então, para não demorar mais com isto, porque vocês já devem estar tão fartos quanto eu de não sair do mesmo sítio, vou tentar resumir ao máximo.

Para já há que explicar que Saigão é uma cidade com 7 milhões de habitantes – já tinha escrito isto, acho... – cheia de vida. É a maior cidade do pais. Hanói só é a capital por questões politicas, como facilmente se percebe. É uma cidade cheia de contrastes, podendo encontrar-se o mais novo no meio do mais antigo. E com o trânsito, passa-se o mesmo. Não conheço em Portugal – não quer dizer que não haja – mas não conheço em Portugal uma cidade cujos semáforos indiquem, em segundos, e de forma bem visível, o tempo que temos de esperar pela próxima mudança de luz. Mas ao mesmo tempo, essa ‘modernidade’ coabita com a forma tradicional de encarar as deslocações.

Torna-se assim interessante verificar que, dependendo dos cruzamentos, os semáforos podem ser mais ou menos respeitados. Ou mesmo não respeitados de todo. Até pelos veículos de maiores dimensões. Na realidade, este tema tão interessante – e para mim tão divertido! – até é capaz de já ter dado mais do que uma valente tese sobre sistemas de gestão de tráfego. Como não é essa a intenção, vou tentar sintetizar algumas regras/formas de funcionamento que tenho vindo a encontrar. Sem nenhuma ordem específica. Mas também para quê uma ordem na descrição de uma aparente desordem?

Primeiro, a faixa direita – quando a via tem duas faixas – ou a parte direita da faixa de rodagem, é para os veículos de duas rodas. Os veículos de 4 – ou mais – rodas andam sempre à esquerda. Mesmo quando querem virar para a direita...

Depois temos a regra da buzina. Eu buzino sempre para os tipos que estão hierarquicamente ao mesmo nível, ou abaixo de mim. Ou seja, um autocarro buzina para toda a gente – felizardos!, um carro ou carrinha, buzina para outros carros, mas sobretudo para os motociclos e velocípedes. Os motociclos por sua vez, buzinam entre eles (muito), e para os velocípedes. E os velocípedes... bom, esses não costumam ter buzina... Espera!, estava a esquecer-me dos peões que querem atravessar a estrada! Estes é que são mesmo os últimos na hierarquia.

Mas isto do apito não é como em Portugal, em que se buzina para dizermos ao gajo da frente Anda lá ò cromo! Que o semáforo já está verde há vários milionésimos de segundo! (no norte a linguagem não seria exactamente esta), ou para outro tipo de refilonices. Não senhor. A buzina é usada de um modo muito mais, como dizê-lo?... muito mais terapêutico? Tipo prevenção. É quase um ritual, um gesto adquirido, que funciona em modo quase automático. Basicamente pode ser para dizer Estás na minha faixa, Olha que eu vou aqui atrás de ti. Deixa-me passar, sff. Por aí fora, percebem? É um modo de utilização que só pode derivar do modo mais calmo em sem stress com que os asiáticos encaram a vida. Diria eu. Aliás, para ver essa forma diferente de estar na vida, posso falar de um concurso de uma cerveja. Um concurso como os de cá, normal. Como os de cá, tem como prémio principal um SUV todo moderno. Como os de cá, temos de ver a carica para verificar se temos prémio. Como os de cá – salvo erro... – todas as caricas têm alguma coisa escrita, mesmo que não tenha prémio. Já não muito bem como cá, é o facto de todas as caricas não premiadas terem frases... não sei bem como dizê-lo... frases inspiradoras? Do tipo Aproveite para desfrutar aquilo que tem, e coisas parecidas. Esta ‘diferença’ mostra também a maneira diferente de estar na vida, e de a apreciar.

Mas a propósito disto do Eu vou atrás de ti, há uma regra fundamental para as coisas funcionarem no meio deste aparente caos. É a regra do “Eu preocupo-me com o que vai à minha frente. Fazes favor, tu que vais atrás de mim, preocupa-te comigo. – Ok, vamos aterrar, tenho de desligar isto...

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