Ora bem, queria só contar-vos talvez o episódio mais divertido que me aconteceu até ao momento. Lembram-se de eu ter dito que apanhei uma boleia de motociclo até Cho Lon, com a Hao? Pois bem, embora os encontros imediatos com o tráfego envolvente sejam uma constante, desde pessoas que nos aparecem à frente, a tentar atravessar a rua, até ao carro que nos apita mesmo ao lado, para avisar que está ali, passando pelas outras motas que, em sentido contrário, passam pelo meio de nós - nós, os que vamos num fluxo contínuo que segue num determinado sentido, entenda-se –, culminando em apoteose nos cruzamentos onde esses fluxos se cruzam em mais direcções do que as vias existentes nesses mesmos cruzamentos, e onde, de modo aparentemente desordenado, mas sempre fluído, os veículos se cruzam uns com os outros, à frente, atrás, de lado, mas nunca – que eu visse – uns por cima dos outros. E então se forem rotundas, então aí é que é ver o sistema a funcionar na sua máxima eficácia. Mas dizia eu que, embora os encontros imediatos sejam uma constante, com a minha boleia, os momentos mais delicados eram os arranques nos raros semáforos que eram respeitados (e por acaso, ela era das mais respeitadoras). E às tantas, logo a seguir a um desses arranques, ouço-a dizer Oh my God!, e começa a virar para a esquerda, a meio do cruzamento. Não sei se estão bem a ver. Não, não estão de certeza absoluta! É que todas as ruas, deixa lá ver, ... eram cinco, salvo erro, todas as ruas estavam a debitar tráfego em todos os sentidos. E quando ela começa a virar para a esquerda, claro que de frente – e do lado direito também – só via uma mole compacta de motociclos à mistura com alguns carros – sobretudo táxis, diga-se de passagem – e... um camião, este último em perfeita rota de colisão connosco. E ela a utilizar o método do Vou-me metendo à frente dos outros, até conseguir furar (método essencial a dominar, para quem quiser conseguir chegar a algum lado em Saigão. E funciona, a sério).
Enquanto eu tentava perceber o que se passava, imaginando que se devia ter enganado no caminho, lá conseguimos chegar em segurança junto ao passeio da esquerda. Quando lhe pergunto o que se passava, percebi que... tinha perdido uma chinela – a esquerda, para ser mais exacto – no meio do cruzamento. E olha para trás. E quando digo no meio do cruzamento, é porque, quando viro a cabeça para olhar para o sítio onde ela tinha os olhos fixos, lá vi a chinela perdida, mesmo quase no meio do cruzamento... Claro que quem me conhece, sabe que perante uma donzela em perigo (a chinela, claro!), não consigo deixar de fazer alguma coisa. De modo que lá fui eu, com a minha aparente calma – por acaso, e só mesmo por acaso, deste vez até não era só aparente, não sei porquê, mas estava mesmo impávido e sereno perante tão dantesca tarefa. E, sempre de olho na coitada da chinela, a pensar quando seria passada a ferro, vou tentando avançar pelo meio do trânsito, à medida que vou vendo as motas a passarem-lhe ao lado, o carro que não a pisou por uns centímetros, a carrinha que lhe passou por cima sem a atropelar. E enquanto avanço, vou pensando, sobretudo, em como resolver o momento critico da situação: baixar-me para apanhar a pobre e indefesa chinela, ali sozinha e tolhida de medo, no meio do cruzamento, sem perder o contacto visual com o tráfego envolvente. O que me valeu foi uma breve aberta, em que só havia aí umas 50 motorizadas na estrada, sem carros nem carrinhas nem outras criaturas metálicas de maior tamanho, e lá consegui a tarefa impossível de a salvar. A viagem de regresso decorreu sem maiores incidentes. A viagem de regresso para junto da Hao, claro, porque não sei se se lembram, mas eu estava no meio de um cruzamento, entre dezenas e dezenas de viaturas, com uma chinela na mão, ok? Foi um episódio surreal. Quer dizer. Foi bem real. Mas surreal para a nossa tão pobremente real realidade certinha em que vivemos...
terça-feira, 7 de julho de 2009
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1 comentário:
Sò de ler fiquei estonteada, com este tráfego... de motas, bicicletas... e palavras :-)
Luís, my man... onde estão as fotos??? sabes que estas valem mais do que mil (ou dez mil no teu caso) palavras.
Acho que no meio disso tudo, perdi alguma coisa... não, não! Não é um chinelo :-) ah, jà sei, é o fio da tua historia: o que é que estás tu a fazer no Vietname???? um estudo sobre o tráfego :P
just kidding!
Boa viagem e vê-la se não te transformas em crêpe... chinesa of course :)
beijos
...isabelle
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